domingo, 23 de novembro de 2008

Cultura em Cabo Frio

Perdoe-nos por nos traíres
Tecemos muitas artes, muitas idéias e junto a elas muitas decepções. E quando esperávamos idéias que valorizassem a nossa arte com ações institucionais catalisadoras das aspirações, eis que surge a proposta de reunir três áreas distintas: turismo, cultura e esporte - que só em breves momentos se cruzam em parcerias. Senão, vejamos, a administração turística pública se insere em planejá-la para o incremento de infra-estruturas necessárias para propiciar o seu desenvolvimento. Cabe ao Turismo estar integrado à área de industria e comércio por ser um promotor de bens e serviços que atraia o visitante. Diferente da Cultura que é uma área voltada à capacitação, a valorização, a promoção da identidade e da sensibilidade do ser humano. A primeira, incentiva investimentos em médio prazo e a segunda a fundos perdidos no infinito da tradição e do saber.
Os eventos culturais que perpassam pelo turismo são apenas expressões circunstanciais, passíveis a atrair o consumidor turístico. A maioria dos investimentos culturais tem pouco a ver com os paradigmas que regem o turismo. Aglutiná-los, incluindo aí o esporte, engessará as duas atividades ou tornará amorfa a ação turística. Quando a viabilidade mercadológica do turismo não vê no produto cultural esse potencial, o exclui: retiraram a feira literária da Festa Portuguesa, talvez por senti-la inócua para o turismo. Ah, que mente benfazeja a que criou a feira literária de Paraty, hein?
Lógico, que não sou contra reformas administrativas, que enxuguem e agilizem a polpuda máquina. Mas, minguar a área cultural e submetê-la a uma autarquia de eventos para deslanchar produções com potenciais turísticos é um erro. Uma Fundação para a área Cultural deve ser ampla: ela deve ser composta por um conselho gestor que implemente políticas públicas. Se possível, a partir de um fórum permanente de discussões culturais, para uma maior transparência; ser fomentadora de editais de ocupação e patrocínio através de leis de incentivo; ser gestora e arrecadadora da ocupação dos espaços; ter capacidade funcional para a captação de recursos. Ela deve propiciar meios para que os produtores e entidades exerçam esse papel e fiscalizá-las com todo o rigor. Nunca, em lugar nenhum ela poderá ser realizadora ou produtora de eventos.
Ansiamos por uma Fundação Cultural, pela sua mobilidade de atrair importantes parcerias. Cidades menores que a nossa, transformaram suas Secretarias em Fundações, que os fez sair do vazio absoluto em que se encontravam para a constituição de patrimônios culturais e artísticos em seus poucos anos de existência. Para não buscar um exemplo distante: hoje, se Rio das Ostras consegue nos dar um banho em serviços culturais - mesmo sem efetivo artístico importante - é muito por conta da sua Fundação e da seriedade com que os seus gestores a administram.
Perdoem-me pela arrogância do brado: mas, já ando com vergonha em dizer por aí que, “companheiros” que me foram tão caros durante anos deixaram passar essa tão triste idéia, depois de tantos colóquios e discussões veementes sobre a área. Lembrem-se, há muito tempo que a classe artística cabo-friense reivindica um Fundo Municipal de Cultura com uma Lei de Incentivos gerados e administrados por uma Fundação Cultural que subsidie e promova as produções artísticas. Queremos apenas isso. Nada de novo que ainda não fizeram por aí e que têm dado certo.